Postagens

“O GATO PRETO” NO OLHAR DE STUART GORDON

Imagem
Por Lucas Longhi  No conto “Gato Preto”, publicado pela primeira vez em 1843, Edgar Allan Poe traz ao leitor relatos do que, supostamente, o narrador vivenciou ao conviver com um gato chamado Pluto, ou Plutão. Escrito em primeira pessoa, logo fica clara a intenção de ambiguidade que o autor traz, criando um mistério em torno do que é real, do que é imaginação e do que é sobrenatural. O texto usa o horror e o suspense para lidar com temas como alcoolismo, violência doméstica e crueldade contra os animais. Plutão é a representação romana do deus grego Hades. Na mitologia, ele é considerado o rei do submundo, governador do reino dos mortos, e tudo que está abaixo da terra é considerado de seu domínio. Não coincidentemente, essa temática mortal está fortemente associada ao gato Plutão do conto, que parece ser um ímã para as fatalidades que acontecem ao longo da narrativa, além da insinuação de sua possível imortalidade, pois nem sua própria morte é capaz de evitar seu retorno na rotina...

William Wilson no duplo entre Poe e Malle

Imagem
por Willy Bonfim Silva O conto William Wilson de Edgar Allan Poe publicado inicialmente em 1839 e depois na coleção Histórias Extraordinárias em 1840, nos apresenta o relato de um homem próximo da morte, que utiliza do nome falso de William Wilson para contar sua história de vida. Em 1968 o conto ganha uma adaptação dirigida por Louis Malle, no filme “Histórias Extraordinárias” que foi feito em colaboração com outros diretores que adaptaram diferentes contos do autor. William Wilson inicia seu relato nos contando sobre sua infância no colégio interno, já nesse local ele conhece uma figura que irá acompanha-lo em toda sua vida, seu sósia que possui o mesmo nome e data de nascimento de William, além de possuir semelhanças físicas, sendo uma deficiência que impedia o sósia de elevar sua voz a única diferença marcante entre os dois. O sósia será visto por Wilson como um rival devido essas semelhanças, outro motivo do ódio de William por seu sósia é os conselho...

O Coração Delator (The Tell-Tale Heart) a partir da originalidade de Edgar Allan Poe e de duas obras fílmicas

Imagem
por Mateus Zaidan   Edgar Allan Poe escreveu o conto The Tell-Tale Heart em 1843 que pode ser conhecido aqui no Brasil como O coração delator, o coração denunciador ou o coração abusador. O protagonista, que também é narrador, conta essa história a alguém (interlocutor) que o ouve, provavelmente atônito com essa descriminação dos fatos. Talvez alguém da cadeia ou hospício. Isso não é dito, é apenas uma livre interpretação.  A história acompanha um jovem rapaz que vive na casa juntamente com um idoso. Esse jovem deve ser cuidador do idoso ou mordomo da casa ou as duas coisas simultaneamente. E ele deixa claro que sente apreço pelo velho e que o estimava, pois, o velho sempre o tratara bem, mas algo o começou a incomodar: “Um dos olhos dele parecia os dum abutre ― um olho azul claro, recoberto por uma película nevoenta. Cada vez que esse olho me fitava, sentia gelar-me o sangue” (Poe, 1843).    Decidido a matar o velho durante a noite, o jovem rapaz passa sete dia...

O Corvo pelo olhar de Os Simpsons

Imagem
por Leda Gambús  Muitos pensam que na Natureza apenas o ser humano entende o que é a morte, isso porque nunca leram O Corvo de Edgar Allan Poe. Neste poema de 1845, Poe narra uma noite fria e sombria vivida por um protagonista amargurado pela perda da amada, e possui o sono interrompido pela figura assustadora de um corvo, que torna tudo cada vez mais perturbador. Com sua escrita rebuscada, Poe descreve os acontecimentos daquela madrugada aterrorizante num ritmo musical, que permite ao leitor entrar numa espécie de transe e se deixar envolver pelos eventos do sobrenatural. A cada leitura, percebe-se o quão presente é a morte em todo poema através de pistas vindas da engenhosa mente do escritor. A começar pelo contexto da narrativa, que se passa no frio gélido de dezembro, onde nada vive ou nasce. Outro elemento sinistro é o animal que dá título à obra: o corvo. Descrito pelo protagonista de maneira emblemática, ele possui uma estranha habilidade de fala, que ecoa a toda pergunta fe...

POE E CORMAN EM “O POÇO E O PÊNDULO” – VISÕES DISTINTAS EM OBRAS IGUALMENTE FASCINANTES

Imagem
por  Jonathan Carrijo   Escrito por Edgar Allan Poe em 1842, o conto “O Poço e o Pêndulo” se passa em Toledo e narra o desespero dos últimos momentos de um condenado à morte pela inquisição espanhola. A história se passa em uma espécie de calabouço, e dali não saímos até que ela termine. Situando-se apenas nesse único local, não sabemos o motivo da presença daquele homem ali, restando-nos apenas, auxiliados pelo contexto histórico, imaginar as supostas causas (mesmo que muitas vezes não houvesse causa alguma, visto que a inquisição não precisava de provas ou motivos cabíveis para cometer suas barbáries). Acompanhamos então a descrição detalhada de como esse local funciona, assim como a aflição e desespero do nosso narrador, que a qualquer momento pode padecer diante dos métodos de tortura assustadores que nos são descritos. O tempo da história é psicológico, já que transita pelas memórias do narrador e passeia livremente por diversas questões, não focando em uma linearidade. O...

Quando o cinema desembrulha a literatura: o sadomasoquismo e a culpa cristã em “O Poço e o Pêndulo” (1991)

Imagem
por Amanda da Silva Oliveira  “O Poço e o Pêndulo" (1991), dirigido por Stuart Gordon, é uma das adaptações cinematográficas da obra homônima de Edgar Allan Poe, publicada em 1842, que retrata a história de um homem sentenciado à morte na Inquisição Espanhola; assombrado pela iminência do óbito e pelos fantasmas de sua própria mente, o protagonista mergulha nas profundezas da psique e na crueldade da condição humana. Nesse texto, exploraremos como o filme aborda os temas do sadomasoquismo e da culpa cristã através do personagem do Grande Inquisidor Torquemada, interpretado por Lance Henriksen, comparando-os com a narrativa original do conto. No conto de Poe, somos transportados para a sombria atmosfera da Inquisição Espanhola em Toledo, onde um prisioneiro é submetido a torturas físicas e psicológicas. Elementos como o poço sem fundo e o pêndulo afiado que lentamente desce em sua direção simbolizam a dualidade entre a morte iminente e o castigo divino, concebidos pelos crist...

Pânico(1996) - por Leda Gambús

Imagem
Pânico subverte as regras do slasher com seu enredo cativante que ironiza os clichês do horror e propõe personagens críveis com mulheres fortes, inteligentes e corajosas. Com trama inspirada no Estripador de Gainesville do início dos anos 1990, Ghostface aterroriza Woodsboro, cidade do interior da Califórnia semelhante ao criminoso real. Seu modus operandi nada tradicional - assim como este filme que está longe disso - o assassino liga para sua vítima e faz perguntas sobre filmes de terror. Porém de nada adianta gritar as respostas para a tela, já que ao protagonizar este infame jogo, a vítima irá morrer de qualquer maneira. Ao homenagear já nos primeiros minutos o indiscutível clássico As Três Máscaras do Terror de Mario Bava (1963), Kevin Williamson brinca com a audiência ao apresentar um roteiro que surpreende, choca e diverte. Além de matar a atriz mais famosa do elenco (Drew Barrymore) em uma introdução tensa e desesperadora, percebe-se que não se trata de um filme com...

Crítica - Sissy (2022) - por Leda Gambús

Imagem
Sissy é um slasher queer que conecta a Austrália com o gênero de terror através de uma história divertida e violenta, questionando a relação tóxica criada pela internet em que somos induzidos a sempre apresentar nossas melhores versões. Escrito e dirigido por Hannah Barlow e Kane Senes, o filme traz um universo cheio de dubiedades sob o ponto de vista de Cecília (Aisha Dee), uma jovem influenciadora de saúde mental que busca conforto e aprovação online, mas que esconde um lado sombrio devido a traumas do passado. Com escolhas assertivas de fotografia e direção, Sissy é apresentada logo no início de forma controversa e irônica em meio a planos fechados, iluminação e cenário, revelando ao espectador em poucos minutos que a personagem se esforça para construir sua melhor versão online para ser totalmente o oposto do mundo real em que vive. O roteiro é autêntico e delicioso de acompanhar, pois consegue unir de forma orgânica os gêneros de terror e comédia para trabalhar temas como:...
Imagem
The Stuff – A Coisa. Porque um alienígena disforme semelhante a um marshmallow cremoso se tornou um clássico de terror que causava pesadelos nos jovens dos anos 80. por Ales de Lara O filme “The Stuff” de 1985 dirigido por Larry Cohen é um filme sobre um alienígena sem forma definida, mas de aparência semelhante a um marshmallow que marcou uma geração. Alienígenas por si só já permeiam o imaginário de muitas pessoas, mas uma das razões pelas quais “A Coisa” pode ter se destacado tornando-se um ícone do cinema de horror é o fato de que, não só esses seres são invasores de corpos, mas também tem gosto e consistência de sobremesa, o que torna extremamente fácil de entrarem nos corpos humanos. É estranho pensar que algo de aparência inofensiva poderia ser tão perigoso, o que torna ainda mais eficaz sua disseminação. Em “Invasores de corpos” 1978, de Philip Kaufman, os humanos sofrem uma espécie de remasterização e em “Alien” 1979 de Ridley Scott, a larva alienígena usa o corpo human...