POE E CORMAN EM “O POÇO E O PÊNDULO” – VISÕES DISTINTAS EM OBRAS IGUALMENTE FASCINANTES


por Jonathan Carrijo 


Escrito por Edgar Allan Poe em 1842, o conto “O Poço e o Pêndulo” se passa em Toledo e narra o desespero dos últimos momentos de um condenado à morte pela inquisição espanhola. A história se passa em uma espécie de calabouço, e dali não saímos até que ela termine. Situando-se apenas nesse único local, não sabemos o motivo da presença daquele homem ali, restando-nos apenas, auxiliados pelo contexto histórico, imaginar as supostas causas (mesmo que muitas vezes não houvesse causa alguma, visto que a inquisição não precisava de provas ou motivos cabíveis para cometer suas barbáries).

Acompanhamos então a descrição detalhada de como esse local funciona, assim como a aflição e desespero do nosso narrador, que a qualquer momento pode padecer diante dos métodos de tortura assustadores que nos são descritos. O tempo da história é psicológico, já que transita pelas memórias do narrador e passeia livremente por diversas questões, não focando em uma linearidade. O objetivo aqui é a busca pelas sensações, não em uma narrativa repleta de acontecimentos.

Já o filme de Roger Corman, lançado em 1961 e traduzido para o Brasil com o duvidoso título de “A Mansão do Terror”, em quase nada se assemelha à obra de Poe, mantendo apenas o título e alguns poucos elementos. O filme tem uma história totalmente diferente: um homem (Sr. Barnard) vai até a mansão do cunhado para compreender como se deu a morte misteriosa de sua irmã, que ele não via há um bom tempo. A partir daí, com a sua presença no local, as coisas começam a ficar cada vez mais estranhas. Aparições da irmã começam a ser descritas pelos moradores da mansão: o que estaria acontecendo? Seu espírito poderia estar revoltado por algum motivo?

Apenas por essa pseudo-sinopse já fica claro a enorme discrepância entre as obras. Enquanto que no conto de Poe o foco é direcionado para as sensações e não para uma trama propriamente dita, aqui temos uma história muito mais elaborada, contendo vários personagens. O cenário não é mais um calabouço, mas sim a mansão como um todo. E o tão esperado poço e o pêndulo se fazem presentes apenas nos últimos minutos da história, como parte integrante do clímax.

Todas essas mudanças, entretanto, são justificáveis, já que seria impossível trazer para as telas, ainda mais tendo em vista o tamanho do conto e a duração de um longa-metragem, a história contada por Poe. Sendo assim, Corman cria o seu próprio universo, novamente contando com a já divertida união com Vincent Price em um papel que passeia por diferentes esferas, intrigando o público a todo momento.

Não é só de mudanças, porém, que o filme de Corman vive: ele traz algumas semelhanças com a obra original. A questão da tortura também é tratada aqui, mas agora com uma sala repleta de instrumentos terríveis, que pode ser encontrada na mansão. Explora temas recorrentes na literatura do Poe como a loucura e o homem atormentado e faz ainda referências a outros contos, como “O Barril de Amontilhado” e “O Gato Preto”.

Trazendo ainda algumas discussões sobre o adultério, que sempre recebe uma punição (inicialmente com a mãe e o tio de Nicolas e no fim com a esposa do personagem vivido por Price, Elizabeth) e contando com vários plot twists, “A Mansão do Terror” é mais uma obra que merece ser conhecida (e elogiada) na filmografia de Corman.

No fim das contas, mesmo sendo produtos totalmente distintos, as obras de Poe e de Corman permanecem fascinantes, cada uma à sua maneira, e com ambas carregando características clássicas de seus realizadores. Características essas que, mesmo após tantos anos, permanecem tão vivas e eficientes como antes.

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