O Coração Delator (The Tell-Tale Heart) a partir da originalidade de Edgar Allan Poe e de duas obras fílmicas
por Mateus Zaidan
Edgar Allan Poe escreveu o conto The Tell-Tale Heart em 1843 que pode ser conhecido aqui no Brasil como O coração delator, o coração denunciador ou o coração abusador. O protagonista, que também é narrador, conta essa história a alguém (interlocutor) que o ouve, provavelmente atônito com essa descriminação dos fatos. Talvez alguém da cadeia ou hospício. Isso não é dito, é apenas uma livre interpretação.
A história acompanha um jovem rapaz que vive na casa juntamente com um idoso. Esse jovem deve ser cuidador do idoso ou mordomo da casa ou as duas coisas simultaneamente. E ele deixa claro que sente apreço pelo velho e que o estimava, pois, o velho sempre o tratara bem, mas algo o começou a incomodar: “Um dos olhos dele parecia os dum abutre ― um olho azul claro, recoberto por uma película nevoenta. Cada vez que esse olho me fitava, sentia gelar-me o sangue” (Poe, 1843).
Decidido a matar o velho durante a noite, o jovem rapaz passa sete dias indo ao seu quarto, tentando encontrar uma brecha para mata-lo, mas não o fez, pois o velho estava dormindo e, dessa forma, ele não conseguiria enxergar o olho cego do velho, que era o único motivo de o querer matar.
É interessante que esse jovem já inicia o conto defendendo-se da acusação de ser louco, tentando nos convencer de que é sóbrio e normal: “um louco seria, porventura, tão prudente”? (Poe, 1843). Porém, a cada parágrafo lido, a dúvida sobre sua loucura vai se desenrolando em certeza.
Na oitava noite de espreita na porta do velho, enfim, o jovem o acorda ao dar uma risada abafada. Isso deixa o velho atônito, amedrontado, supondo ser um ladrão e tentando convencer-se de que era um rato ou outro animal, o velho ficara imóvel, por mais de uma hora: “calculava o que o pobre velho sentia, e eu tinha piedade dele, ainda que interiormente eu sorrisse comigo mesmo”. (Poe, 1843).
Mas o jovem não poderia matar o velho, porque ele não tinha nada contra ele, mas sim contra seu olho cego. Então, iluminando o rosto do velho, consegue ver seu olho azul e deficiente. Enche-se, subitamente, de raiva e finaliza o que tinha intenção de fazer: derruba o velho no chão e joga a cama por cima dele, matando-o. Em seguida checa os batimentos de seu coração, inexistentes por hora, e o coloca por debaixo do piso de madeira, envolto num lençol.
Na noite seguinte policiais chegam àquela casa, dizendo ter recebido denúncia de gritos durante a noite. O jovem os recebe e os coloca sentados em cadeiras por cima do piso em que o velho estava depositado. Durante a conversa, o jovem ouve o soar do relógio, tão drasticamente volumoso, ficando mais alto a cada instante, tornando-se uma palpitação de um coração, mais forte e mais alto, como se denunciasse que ali estaria escondido. O jovem, com sua audição aguçada, não consegue lidar com aquela situação e pressupondo que os policiais também estariam ouvindo o coração do velho, acaba por levantar o tapete, apontar para o piso de madeira e acusar-se de o matar.
Muitas versões dessa história foram produzidas ao longo dos anos, em curtas e longas metragens. Para esse estudo eu optei por duas versões bem divergentes entre si, uma do século passado e outra deste século. A primeira, é dirigida por Jules Dassin, de 1941.
Nessa história o jovem rapaz é uma espécie de escravo da casa daquele senhor e, em um dos diálogos, descobrimos que ele é seu dependente financeiro desde os 14 anos de idade estando, agora, prestes a completar 30. O velho pergunta: “por que não me deixas? É meu dependente há anos”, nos fazendo entender que a presença do jovem não é tão desejada ali.
Essa versão foge um pouco do espírito do conto original de Poe. Aqui me parece que o jovem ficara louco com o tempo, por tanto receber maus tratos do velho. E o fator: olho cego como motivador do assassinato, chega à quase insignificância. Dessa forma, a loucura furtiva que acompanhamos do narrador também beira a inexistência.
A versão de Dassin talvez tente dá um sentido maior ao assassino, retirando-o daquele lugar sombrio de uma mente catatônica. E embora ele tenha dado dignidade ao protagonista, isso não o impediu de fazer o oposto com o velho, emprestando a esse personagem uma couraça amarga, rude e ingrata. Isso é tão presente que a gente se encontra, por vezes, torcendo para o jovem, para que ela consiga realizar o que quer, para que ele não seja pego pela polícia, para que ele seja livre, finalmente, da presença de seu algoz.
No final desse filme, ao acusar-se aos policiais, o jovem para de ouvir o soar do relógio/coração. O soar e as batidas ficam mais fortes e mais altas na medida em que o jovem se depara com o que tinha cometido e, diante disso, a única saída para livrar-se do tormento de ter matado o velho era entregar-se, enfim.
Na versão de Robert Eggers, de 2009, acompanhamos o personagem do garoto exercendo o papel de mordomo da casa e cuidador do idoso. Nesse filme o garoto é robótico em seus movimentos e sistemático em um nível patológico. Nos primeiros minutos podemos ver o personagem vestindo-se e aprontando-se para mais um dia de trabalho e, nesse ponto, há uma expressividade das minuciosas características daquele que iremos acompanhar.
O diretor consegue transmitir a personalidade do protagonista a partir dos planos simétricos, da centralidade sempre presente quando ele está em cena e da montagem. Essa última, por sua vez, nos dá um senso de rotina, de repetição, como nas cenas em que amanhece e anoitece e o personagem retira o pinico, dá comida ao idoso e o transporta deliberadamente.
A impressão que se tem, para quem não conhece a obra, é que o jovem cuidador está mais cansado com a labuta diária, de ter uma pessoa em sua completa dependência, do que está, de fato, incomodado com o olho deficiente do idoso. Na cena em que o garoto ilumina o olho do idoso, antes de matá-lo, temos um vislumbre de suas reais motivações. Mas isso fica um tanto mais implícito do que na obra original.
O filme não tem falas até o minuto 15, quando há uma quebra da mente lunática do jovem com a chegada da polícia. A utilização do relógio em som e imagem são bem utilizadas e transmitem inquietação. A direção de arte nos ambienta perfeitamente no século XIX e climatiza com sombras e mistério aquele ambiente. A caracterização do idoso o deixa decrépito e insalubre. Essa versão é assustadora e obscura.
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