“O GATO PRETO” NO OLHAR DE STUART GORDON
Por Lucas Longhi
No conto “Gato Preto”, publicado pela primeira vez em 1843, Edgar Allan Poe traz ao leitor relatos do que, supostamente, o narrador vivenciou ao conviver com um gato chamado Pluto, ou Plutão. Escrito em primeira pessoa, logo fica clara a intenção de ambiguidade que o autor traz, criando um mistério em torno do que é real, do que é imaginação e do que é sobrenatural. O texto usa o horror e o suspense para lidar com temas como alcoolismo, violência doméstica e crueldade contra os animais.
Plutão é a representação romana do deus grego Hades. Na mitologia, ele é considerado o rei do submundo, governador do reino dos mortos, e tudo que está abaixo da terra é considerado de seu domínio. Não coincidentemente, essa temática mortal está fortemente associada ao gato Plutão do conto, que parece ser um ímã para as fatalidades que acontecem ao longo da narrativa, além da insinuação de sua possível imortalidade, pois nem sua própria morte é capaz de evitar seu retorno na rotina do protagonista. Até mesmo uma parede cimentada não consegue detê-lo.
O conto “Gato Preto” foi adaptado para a televisão em 2007, como o décimo primeiro episódio da segunda temporada da série antológica Mestres do Terror, dirigido por Stuart Gordon. Há diferenças significativas em relação ao texto original. Diferente da literatura, onde a imaginação do leitor faz parte da história e muitas nuances ficam à mercê da interpretação, no filme colocar esses elementos se torna um desafio.
No episódio, o protagonista Edgar Allan Poe, interpretado por Jeffrey Combs, está enfrentando problemas financeiros, agravados pela sua sede por álcool e por sua falta de inspiração para escrever novas histórias. Aqui, o gato preto Plutão é o alvo para ele descontar suas frustrações. Nas duas histórias, o protagonista possui uma moral duvidosa e um ego altamente inflado, tendo uma raiva inexplicável pelo animal, mesmo que ele mesmo contradiz isso.
A adaptação aposta muito mais em brincadeiras com as expectativas do que com os cenários imaginários. Há vários momentos de “vai e vem” onde somos retirados do que estamos vendo para em seguida vermos que aquilo não havia de fato acontecido. O alcoolismo ainda é um elemento importante aqui, mas dessa vez é usado como uma fonte de problemas (ou de solução), já que os delírios do narrador parecem partir sempre após uma bebedeira no bar.
Apesar de não ser tão longo quanto um filme de longa-metragem, ainda se nota que muitos detalhes da trama foram inseridos e aumentados para preencher lacunas de tempo que não agregam muito bem na história. Enquanto o conto original é muito objetivo e preciso em contar sua história, o filme precisa cumprir seu requisito de sessenta minutos, o que acaba enrolando e deixando-o levemente maçante. O artifício de mostrar algo acontecendo e em seguida revelar que aquilo na verdade não aconteceu pode ser uma consequência disso.
O conto possui um final cru, violento e pessimista, que combina com o tom em primeira pessoa pelo qual é escrito; não há salvação para o narrador. Já na adaptação para televisão, após a grande revelação de que o gato estava na parede junto com o cadáver, há uma segunda revelação: na verdade, o que víamos até agora era o processo de escrita de um autor em busca de uma nova história. O que vimos foi, na verdade, o conto escrito por Edgar Allan Poe após essa crise de bloqueio criativo.
Apesar de querer elevar o conto “Gato Preto” a uma dramaticidade que não combina tanto com o texto original, o filme traz uma nova interpretação com elementos diferentes e originais, e, apesar de alguns clichês, consegue dar ao conto um novo suspiro de originalidade.

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