William Wilson no duplo entre Poe e Malle

por Willy Bonfim Silva

O conto William Wilson de Edgar Allan Poe publicado inicialmente em 1839 e depois na coleção Histórias Extraordinárias em 1840, nos apresenta o relato de um homem próximo da morte, que utiliza do nome falso de William Wilson para contar sua história de vida. Em 1968 o conto ganha uma adaptação dirigida por Louis Malle, no filme “Histórias Extraordinárias” que foi feito em colaboração com outros diretores que adaptaram diferentes contos do autor.

William Wilson inicia seu relato nos contando sobre sua infância no colégio interno, já nesse local ele conhece uma figura que irá acompanha-lo em toda sua vida, seu sósia que possui o mesmo nome e data de nascimento de William, além de possuir semelhanças físicas, sendo uma deficiência que impedia o sósia de elevar sua voz a única diferença marcante entre os dois. O sósia será visto por Wilson como um rival devido essas semelhanças, outro motivo do ódio de William por seu sósia é os conselhos dado por ele para William em momentos que o personagem está cometendo atitudes moralmente questionáveis. No conto William vai falar em vícios, principalmente na bebida e extravagância, além disso ele vai relatar suas trapaças em jogos de carta, que na obra original e na adaptação vai acabar com seu sósia desmascarando suas trapaças, mas as situações vão se dar de formas diferentes nas duas obras, no conto ele engana um homem, já no filme uma mulher é enganada e ele a faz pagar a dívida com uma punição física.

A adaptação difere do conto em diversos pontos, o conto possui uma característica mais descritiva, principalmente na parte da infância de Wilson, em que ele nos relata como era a mansão do colégio interno e a relação dele com seu sósia, assim a maior parte do conto se passa nesse momento da vida de William, já o filme prioriza a vida adulta do personagem, nos momentos em que o sósia aparece para reprimir William, assim sempre havendo uma passagem de tempo durante essas cenas.

O William do filme é muito mais violento que o William do conto, seus atos possuem um teor mais sexual e abusivo, o filme é uma obra dos anos 60, uma época que tratar de questões sexuais era mais comum do que no século 19, quando o conto foi publicado, além disso nos anos 60 as teorias de Freud já eram bastante conhecidas e difundidas, então na adaptação a questão do desejo e da repressão, como se William fosse governado quase sempre pelo Id e o Ego sendo o seu sósia, estão muito

mais presentes, é claro que quando Poe escreveu seu conto essas teorias ainda não existiam, ainda assim a obra original pode ser analisada através desse olhar da psicanálise.

A obra cinematográfica da essa outra dimensão sobre o personagem, já que no filme é possível ver os atos de William de uma forma muito mais clara, enquanto no conto o leitor tem apenas as informações dadas pelo narrador, que é próprio personagem. Embora eles possuam quase a mesma história e o final seja parecido, com a diferença da morte de William Wilson sendo mais explícita no filme, eles são coisas diferentes, a adaptação não precisa recontar o conto exatamente como ele foi escrito, para que ela seja vista como uma boa obra, afinal pelo simples fato do cinema possuir imagem e som, contar uma história no cinema nunca será o mesmo que contar ela na literatura.

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