Pânico(1996) - por Leda Gambús

Pânico subverte as regras do slasher com seu enredo cativante que ironiza os clichês do horror e propõe personagens críveis com mulheres fortes, inteligentes e corajosas. Com trama inspirada no Estripador de Gainesville do início dos anos 1990, Ghostface aterroriza Woodsboro, cidade do interior da Califórnia semelhante ao criminoso real. Seu modus operandi nada tradicional - assim como este filme que está longe disso - o assassino liga para sua vítima e faz perguntas sobre filmes de terror. Porém de nada adianta gritar as respostas para a tela, já que ao protagonizar este infame jogo, a vítima irá morrer de qualquer maneira. Ao homenagear já nos primeiros minutos o indiscutível clássico As Três Máscaras do Terror de Mario Bava (1963), Kevin Williamson brinca com a audiência ao apresentar um roteiro que surpreende, choca e diverte. Além de matar a atriz mais famosa do elenco (Drew Barrymore) em uma introdução tensa e desesperadora, percebe-se que não se trata de um filme comum. Logo somos apresentados a Sidney Prescott (Neve Campbell), uma jovem adolescente traumatizada com a perda da mãe em um assassinato brutal ocorrido há um ano, muito parecido com as mortes que passam a assombrar sua pequena cidade. E em meio a jornalistas de tablóides sedentos pelo sangue desta história, surge Gale Weathers (Courtney Cox), uma repórter gananciosa em busca de prestígio, e Dewey (David Arquette) um policial atrapalhado que não esconde sua admiração por ela. Com uma mistura muito orgânica de terror e comédia, o filme consegue se manter dentro do campo do terror seja pela violência gráfica, trilha ou mesmo atuações, deixando o espectador com medo do que pode acontecer sem cair em armadilhas que pudessem torná-lo uma paródia ao carregar ironia e sarcasmo nas doses certas. Desde a primeira sequência, cada cena possui um objetivo assertivo dentro da trama, fazendo o filme seguir em um ritmo acelerado. Curiosidade, tensão e paranoia tomam conta tanto das personagens quanto do espectador, que aprecia cada momento, mas ao mesmo tempo se angustia pois qualquer um ali pode se revelar o assassino. Além da homenagem inicial, o filme é generoso com a audiência seja por seus diálogos, figurinos e até mesmo em elementos de mise-en-scène que remetem a diferentes obras do terror. Brincando com o próprio diretor, o roteiro faz um aceno ao fã do gênero, ao colocar Craven como o zelador Freddy - quem não soltou um risinho de canto ao vê-lo fazendo uma ponta em seu próprio filme usando as roupas icônicas do vilão dos anos 80. As personagens são interessantes e carismáticas, o que torna muito difícil acompanhar o momento de suas mortes. Cheio de performances incríveis, Pânico tem uma escolha assertiva de elenco, impulsionando carreiras de alguns membros da equipe por mais alguns anos. Sidney, é carregada de traumas e paranoias devido a morte da mãe, o que acrescenta camadas de complexidade à sua personagem, que não se deixa levar por frases ou questionamentos do namorado Billy - trazendo um olhar feminino um tanto esquecido na maioria dos filmes da época. Apesar de manter seus princípios e valores desde o início do longa, nos momentos finais a protagonista deixa de ser vítima para agir com a inteligência e coragem que cabe a uma grande final girl. Ironicamente, a decisão de transar com o namorado é representada em uma sequência espetacular fazendo um paralelo ao filme Halloween em VHS, proporcionando um aceno humorado aos fãs do gênero. CONTÉM SPOILER Ao subverter as regras do subgênero propondo dois assassinos que manipulam a narrativa para manterem seus álibis intocados (tanto para a polícia quanto para o público), o roteiro surpreende desde o início quando mostra sua aparente protagonista sendo assassinada em menos de trinta minutos de filme. O filme amarra muito bem os conceitos que se propõe, com uma história ágil e frenética, onde em uma hora e cinquenta minutos de duração, não há tempo para se entediar, muito menos para respirar. Um autêntico slasher que conseguiu trazer frescor ao gênero, assim como fez o clássico Halloween, que revitalizou o terror em 1978, Pânico também encontra seu espaço em uma nova década, até então desgastada pelas fórmulas e clichês. Tags: #Panico #Scream #Film #Cinema #Terror #Slasher #WesCraven #CourtneyCox #DavidArquette #DrewBarrymore #NeveCampbell

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