Horror e Ficção Científica em Black Mirror: um casamento de altos e baixos
por Jonathan Humberto Pereira Carrijo
A série de televisão Black Mirror estreou em dezembro de 2011 no Canal 4 do Reino Unido prometendo arrepiar os espectadores com sua premissa relativamente inovadora. Ela propunha discutir (por meio de uma antologia) as diversas consequências da relação entre seres humanos e os “espelhos pretos” ao seu redor, ou seja, debater de maneira direta a respeito principalmente das tecnologias presentes em nossas vidas. Como uma boa ficção científica que se preze, a série extrapola aquilo que temos no nosso mundo real, criando situações e aparelhos que embora pareçam bizarros a princípio, fazem todo o sentido tendo em vista o que o ser humano foi capaz de alcançar em nome da tecnologia. E talvez more aí o principal trunfo de Black Mirror: a sua capacidade de nos fazer acreditar que aquilo que assistimos, por mais absurdo que possa parecer, pode acontecer caso sigamos por caminhos obscuros.
Dessa forma, a ficção científica foi se mostrando base primordial da série, já que seus temas e discussões giravam predominantemente em torno desse gênero. Entretanto, ele nunca foi o único. A cada episódio o público pôde perceber que a série abraçava também outros tons, como a sátira, o romance, o suspense e, por que não, o horror. Presente de maneira mesmo que secundária, podemos dizer que o horror já se apresentava na série logo em seu episódio piloto; afinal, promover no espectador a angústia de imaginar um ser humano fazendo sexo com um porco em rede nacional é uma ideia que muitos concordariam se encaixar perfeitamente no gênero.
E na segunda temporada não foi diferente. Em seu segundo episódio intitulado “Urso Branco” acompanhamos uma mulher sendo perseguida por diversas pessoas de maneira cruel em uma espécie de pesadelo sem fim que se repete todos os dias. Eis aqui um exemplo de casamento bem-sucedido entre horror e sci-fi. Se a ideia de passar por essa situação já é deveras assustadora, quando descobrimos o motivo para a personagem estar passando por isso é que mora o charme do episódio. E é justamente nesse motivo que se apresenta a ficção científica: a personagem se trata na verdade de uma mulher considerada culpada pelo assassinato brutal de uma menina e foi condenada a passar o resto dos seus dias no Parque White Bear, onde as pessoas testemunham e filmam seu sofrimento e no qual ela tem suas memórias apagadas para que possa sofrer novamente no outro dia sem ter ciência do que aconteceu.
O casamento entre horror e sci-fi é explorado de maneira bastante eficiente em diversos outros episódios da série, como em “Museu Negro” na quarta temporada. Acompanhamos Nish, que ao fazer uma parada para recarregar o seu carro na estrada, encontra um museu repleto de artefatos tecnológicos que envolvem histórias bizarras. Histórias essas que transitam desde um médico que desenvolve um aparelho que te permite sentir em seu próprio corpo a dor que outra pessoa sente a até mesmo consciências humanas aprisionadas para sempre em objetos inanimados.
Contudo, muito tem sido comentado sobre a dificuldade recente da série em dosar a ficção científica de suas histórias com outros gêneros. E se essa discussão já aparecia durante a quinta temporada em 2019, ela ganhou ainda mais força agora, em 2023. Contando com cinco episódios, a sexta temporada da série tem sido alvo de críticas por “abandonar as suas origens”; e a principal reclamação gira em torno do fato da ficção científica estar escanteada, dando mais lugar ao horror ou ao sobrenatural.
A pergunta é: tal reclamação possui, de fato, fundamento? Analisando a recente temporada como um todo, pelo menos três episódios do programa trabalham em maior parte com o horror e o suspense em vez da ficção científica. São eles: “Loch Henry”, “Mazey Day” e “Demon 79” (o segundo, quarto e quinto episódios, respectivamente). Em “Loch Henry” acompanhamos um casal que ao visitar uma pequena cidade, decide contar por meio de um documentário os horrores de um crime acontecido ali alguns anos antes, porém acabam descobrindo segredos assustadores. Já em “Mazey Day” observamos a vida da personagem que dá título ao episódio, que, após atropelar alguém, passa a ter a vida virada de cabeça para baixo enquanto é perseguida por paparazzis. E por fim em “Demônio 79” o público testemunha o desespero de uma mulher que após encontrar um amuleto, passa a ser atormentada por um demônio que a informa que o mundo irá acabar se ela não matar três pessoas nos próximos três dias.
Em “Loch Henry” o mistério e suspense gira em torno da temática bastante discutida atualmente dos “true crimes”, e embora elementos de ficção científica não sejam explorados, a temática original da série permanece: o espelho negro (que aqui se manifesta como as televisões e computadores) em que assistimos esses vídeos sobre crimes reais. Em “Mazey Day” temos até certo ponto do episódio a presença do drama, visto que suas personagens principais enfrentam sérios problemas pessoais, contudo a grande reviravolta acontece em seus últimos quinze minutos, a transformando em uma completa história de horror. Entretanto, é importante ressaltar que temos novamente a presença de um “espelho negro”, que aqui se manifesta como as lentes das câmeras que a todo custa tentam fotografá-la e tiram sua paz. Já em “Demon 79” fica nítido desde o princípio que o intuito do episódio é trabalhar com o desespero de ter que cometer um crime, a presença de uma figura demoníaca e a iminência do apocalipse, temas que se distanciam da ficção científica proposta nas temporadas anteriores do programa; mas mais do que isso, se distancia da proposta da série como um todo ao não trabalhar com seus “espelhos”.
E se o primeiro e terceiro episódios não foram citados aqui, é justamente porque apresentam fortes características de uma ficção científica, e não por coincidência, têm sido os que mais agradaram o público de maneira geral. Porém, é imprescindível deixar claro que a discussão aqui feita não gira em torno da presença do horror nos episódios de Black Mirror, mas sim da ausência de suas características originais em diversas de suas narrativas.
O terceiro episódio da recente temporada, por exemplo, intitulado Beyond the Sea, possui sutis características de horror, como a condução de uma cena de assassinato em seu primeiro ato. Porém, a ficção é base integrante da história, visto que se trata de dois astronautas que estão em uma longa missão espacial e para não se afastarem de suas famílias, conectam diariamente a sua consciência em uma réplica mecânica deles mesmos na Terra.
Dessa forma, é sim possível notar que aos poucos tem ocorrido um desbalanceamento no casamento entre os gêneros ficção e horror, em especial nessa sexta temporada. O grande questionamento é: isso é um problema ou não? Até que ponto as séries devem permanecer fiéis àquilo que se propuseram a fazer em sua premissa original? O que deveria ser mais importante para o público: os temas e gêneros abordados na série ou a qualidade das histórias em si?
Talvez os criadores de Black Mirror tenham novos planos para a série. Talvez eles queiram expandir os seus horizontes e trabalhar com diferentes perspectivas. Talvez o público não esteja preparado para essa mudança ou não esteja disposto a abrir mão do casamento original entre ficção e outros gêneros. As dúvidas são várias, mas uma certeza existe: estamos diante de um impasse entre quem produz e quem consome. Resta agora descobrir como resolver o problema e reestabelecer novamente a paz nesse casamento, pois o divórcio é uma triste possibilidade que, sem sombra de dúvidas, prejudicaria os dois lados.
O Coração Delator (The Tell-Tale Heart) a partir da originalidade de Edgar Allan Poe e de duas obras fílmicas
por Mateus Zaidan Edgar Allan Poe escreveu o conto The Tell-Tale Heart em 1843 que pode ser conhecido aqui no Brasil como O coração delator, o coração denunciador ou o coração abusador. O protagonista, que também é narrador, conta essa história a alguém (interlocutor) que o ouve, provavelmente atônito com essa descriminação dos fatos. Talvez alguém da cadeia ou hospício. Isso não é dito, é apenas uma livre interpretação. A história acompanha um jovem rapaz que vive na casa juntamente com um idoso. Esse jovem deve ser cuidador do idoso ou mordomo da casa ou as duas coisas simultaneamente. E ele deixa claro que sente apreço pelo velho e que o estimava, pois, o velho sempre o tratara bem, mas algo o começou a incomodar: “Um dos olhos dele parecia os dum abutre ― um olho azul claro, recoberto por uma película nevoenta. Cada vez que esse olho me fitava, sentia gelar-me o sangue” (Poe, 1843). Decidido a matar o velho durante a noite, o jovem rapaz passa sete dia...

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