A pele que habito (2011) por Luciana Reisdorfer
Aviso: contém spoilers O tema principal do filme é o pesadelo de qualquer homem. Almodóvar se apropria dessa temática da mudança de sexo para o gênero feminino e revela que este é o pior pesadelo que pode acontecer para um homem, considerando o que é ser mulher na sociedade atual. O filme choca constantemente e Vera é violentada e penetrada física e mentalmente num ambiente minimalista e bem decorado. O ambiente em si é claustrofóbico e ao mesmo tempo a direção de arte deixa agradável aos sentidos do espectador. O sci-fi tem relação com a retirada do sexo, incluindo a mudança de pele, com testes seguidos, como se Vera fosse um rato de laboratório clandestino. Em dado momento é revelado que a pele não pode ser queimada e isso acontece em testes literais e antiéticos para checar esse intuito. Além disso há uma desconfiguração da identidade interna e externa de Vera e uma tentativa de substituição por uma outra que já morreu (a falecida esposa infiel de Robert). O/a paciente sobrevive contra a sua vontade, enquanto suas tentativas furtivas de suicídios são revertidas por Robert. E, em que pese os anos de cativeiro, há uma espécie de manutenção do eu dentro de si, através de técnicas orientais. Vera é fisicamente uma mulher que por dentro permanece sendo um homem. O horror acontece desde esse conflito de identidade instaurado, o sadismo da vaginização forçada, além da obrigação de autopenetração com dispositivos para que as paredes da vagina não se colem. O/a paciente é submetido a exames ginecológicos constantes. O que, a partir de um ponto de vista de um homem, é tido como uma violência, em que pese mulheres passem por muitas violências parecidas sem que haja muito questionamento a esse respeito. Os personagens principais, Robert e Vera, estão marcados pela existência um do outro de forma indelével. Vera é o homem que violou a filha de Robert, que mais tarde cometeu suicídio, acreditando que quem a violou foi o seu próprio pai, que a encontrou desmaiada. Por sua vez, Vera é capturada, tem uma mudança de sexo não consentida e é violada constantemente, seja por dispositivos ou exames ginecológicos, seja pelo estupro feito pelo irmão de Robert ou por ter que se relacionar emocional e sexualmente com Robert que controla toda a sua vida. A história toda é um grande melodrama, mas que, ao contrário do geral, se aproxima de um terror, gerando ondas de revolta e empatia, em que cada um tem o seu ponto de vista dentro da loucura instaurada, típica dos filmes de Almodóvar. Ali o mais visceral do ser humano aparece de forma crua, revelando os nossos melhores e piores lados enquanto seres humanos, dentro de cenas melodramáticas absurdas e extremas, em que tudo tem um grande entrelaçamento de histórias ao nível de uma novela mexicana. Os instintos carnais são levados ao extremo por todos os personagens, fazendo com que o espectador se contorça com as novas informações lançadas ao longo do filme. Viciante, cru, violento e deliciosamente visual. A estética do filme é impecável, fugindo do tradicional de que o horror tem que ser muito sangrento, e revelando uma violência extremamente médica e psicológica. Além disso, verifica-se uma inspiração e também homenagem ao filme “Os olhos sem rosto” (1960) de Georges Franju que conta a história de um cirurgião que deixa a sua filha com o rosto desfigurado e passa a buscar clandestinamente um novo rosto para ela. Um clássico do terror francês. Inclusive, nota-se que na cena em que aparece a atriz principal de máscara tem muita semelhança entre as duas filmagens. Ainda que sejam filmes distintos, têm seus pontos em comum e cada um é incrível a sua própria maneira.

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